quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Fim de Carreira



Abafado e bolorento quarto
Enegrecida sala-cozinha
Reboco que desmorona
Hostilidade da vizinha

Sem família, desgarrada
Feito réptil se arrasta
Excomungada, endividada
Pária, poeira sem pátria

Singular ironia
Estar agora carente
Logo quem sempre fazia
A alegria de toda a gente

Prostituindo a alma
Vulgarizando o rosto
Com ou sem calma
Com ou sem gosto


Amiga dos reprimidos
Colo confortador
Dando ouvidos
Expurgando a dor

Encenação, frenesi
Suicídio altruísta
Sem ter para si
Nada em vista

Seios caídos
Repulsão
Cabelo puído
Consternação

Findou-se o show
A etílica noitada
Ela retira a maquiagem
E espera o inferno sentada
A prostituta aposentada.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

IV




Para a poetisa Rayane Medeiros


Estas árvores sozinhas -
Na sombra de estranhos -
Me define o verso
Como uma luz.

Estas árvores
E seu destino -
Jogam sobre meus ideais
Suas farsas...

Plenamente abandonado,
Sou teu complexo
Anseio
De outro Eu
Dentro do Eu.


Ilustração: Salvador Dali

Poema com variação




O que essa noite comprime
De vida, de morte enlevada
Está no peito, na carne
Ensaguentada...

Está na matemática eclética,
No coração, na punhalada
Que atravessa a matéria
De carne apenas formada.

O que essa noite comprime,
O que essa noite altera
Está no homem - define
O que consigo impera.

Vício




Teu vício
Me calça
A alma de tristezas...

No teu olhar
Ouço muito além...
Minha vida dividida
É tua saga aquém.

Mara Ersterne




Teu coração
Me alucina
E me devolve
A carne levada
Do meu corpo suicida.

Teu coração
Me clareia
De perdões
A alma enlatada
Dentro de mim.

Indecisão




Uma garganta me espelha
A face dessa derrota.
Meus braços cruzam
A cavalo tuas pálpebras
De prata...
E mergulham na alma
De teus cabelos perdidos.

Meu ser se estatela
Na água de tuas mãos -
E eu acabo sempre aqui,
Entre este "sim" e este "não".

domingo, 31 de julho de 2011

Cupins

E os cupins se esbaldavam
Pelos ouvidos abriam caminhos
Marchando em filas com lentos passinhos
Aos poucos me esfarelavam

Foram me caindo as cascas
Corroídas, apodrecidas
Intragáveis, poluídas
De virtudes escassas

Quando todas tombaram
Restou o que sou
Um abismo que o diabo abençoou
Onde genocidas germinam

Lá se ouvia um gargalhar
Os cupins envenenados morriam
Agonizando sofriam
A risada tomava fôlego engolindo o ar


Já que só querem imagem
Nego-lhes o perdão
Piso no pescoço
Escarro no coração
Mastigo o cerebelo
Enveneno-os feito cupins
Que jazem ao chão