quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Morte de um escritor


Morro
Nem mais nem menos, morro tanto quanto tu
Uma vez, de modo definitivo

Apenas peço lágrimas de mentira
Quero que de mim digam que morri de lápis na mão
Que escrevi mais mentiras que verdades
E que foram todos devidamente enganados

Isso, digam que foram devidamente enganados
Pouco tenho a deixar, se não meus enganos
Deixem-se embebedar
Sangrem e vomitem
E bebam mais um pouco

Pois é tudo o que tenho

E ao verme que primeiro roer os frios versos do meu poema
Dedico com saudosas lembranças tudo o que quiseres.

Kauê Pereira
Poeta

domingo, 12 de janeiro de 2014

Poema de amor louco


Para o velho Buk.



Eu que muito tenho bebido;
Que às vezes desejo um trago;
Que muito tenho mentido e
Me enganado.   

Eu que me tenho abandonado;
Que às vezes aludido
Não me encontro em mim mesmo;
Que ando a esmo;
Entre os olhares compassivos.

Eu que entre pernas estrangeiras
Viro bicho,
Viro gozo;
Que muito tenho me iludido
em camas avulsas.
Eu que nos bares afogo maus amores
Sugando bocas ébrias.

Eu que me sufoco enlouquecido
Das brigas que evitei resignado;
Das vezes que não quebrei os vidros;
Do sangue que engoli estancado.

Eu que entre um desdém e outro
Visto-me em amargura
E profanação.
Eu que em pelo e verso
Sou inflamável.

Eu que desvivo em mim;
Ao me procurar nos corpos alheios;
Eu que já não tenho freios;
Gozo a vida até o fim.


Bruno Radner/Rayane Medeiros
Poetas

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A bruxa


Por mim seria assim, sem fim,
mas não sou só eu que escolho.
Só colho aquilo que planto
num canto, num riso, num choro.
Não choro e nem mais me espanto.
Sem fim, porque não quero que acabe,
se cabe você nesse abraço,
mal passo um dia sem isso
feitiço já vira saudade.
Nem sou bruxa assim, de verdade
porque também me enfeiticei,
quando nos seus braços deixei
que me fizesse mulher, à vontade.


Hionne Mara,
Poetisa.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Calvário


Não quero escrever pra você
E ser o poeta que embala teus sonhos
Detestaria que pensasse que te sirvo
Trabalhador incansável a te eternizar
Em rimas polidas que pouco significam
Lugares tão comuns quanto a falta de senso
De exaltar algo que me põe em destroços.

Não quero cantar-te
Melodias doces, fáceis de recordar
Almejo, antes de tudo, olvidar
Todo o significado impresso
Nos atos banais, singelos
Frivolidades elevadas a um novo status
Testamentadas com tão pouco caso.

Não quero me tornar um fantasma
Arrastando correntes noites adentro
Perseguindo a luz daqueles momentos
Pra expurgar todo e qualquer carma
Criados à revelia de meus intentos
Por tão vis e cruéis sentimentos
Que me tomaram de assalto
Quando menos era esperado.

Quero, não, necessito respirar
Preciso lembrar quem eu sou
Me situar no caminho onde vou
Sentir que a vida é possível
De ser vivida, vívida
Longe de ti e da negação
Que me impus, ao aceitar condição
De que era preferível
Te amar sem me amar.

Bruno Radner
Poeta

Contando os Minutos

Valencia, Spain 1952. Photo: Elliott Erwitt

Cinco minutos
Para que portas se abram
Corações se partam
Que a melancolia invada
Já sabe do que se trata

Três minutos
Puxe o braço Preencha o átrio
Olhe nos olhos
Sem ressalvas

Diga a verdade
Sem ressalvas
Com honestidade
Sem ressalvas
Da realidade
Sem ressalvas

O amor brota
Corajoso
Intuitivo
Novo

Sem receio de achar
De buscar
A plenitude
A infinitude
Do ser amado
Sem medo dos sonhos
Sem medo de amar.

Anderson Morais
Poeta

Em ser Leal


Marca-me lealdade
Pela dor que lhe certifica
Se sangrar o peito é mostrar-te
Vivo hei de perecer

E se perdida parecer a causa que te elevas
Sossega em mim teu cansaço
Pois pudera eu não pertencer a te por vezes
E desde agora quero servir-te

E se de tempo em tempo
Parecer que lhe esqueço
É que puro não serei tanto
A dor
Mereço

Gabriel Botelho
Poeta

domingo, 5 de janeiro de 2014

Regaço minhas asas


Regaço minhas asas
Teu abraço me faz triste
Pela distância e a complexidade
Regaço minhas asas, mas ainda não sei voar

Quero teu colo meu amor
Se perdido me farto, me farto hei do tempo
Da distância pura e rude
Se pudesse levar-me o vento
Ajudaria eu com minhas fracas asas

Regaço-as mas falta-me coragem
Quem sabe seja o medo da neblina e da friagem
Que de imaginar suspiro

Quem sabe o amor real não seja
Pois me falta a ousadia que quem vive
A liberdade de quem chora
E a compreensão de tua ida

Gabriel Botelho
Poeta